Por que mais uma newsletter de IA, e por que a partir daqui

jul. 26, 2026·
guIA
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Abertura: o problema que este blog quer resolver

Toda semana surge uma novidade de inteligência artificial que é discutida como se o mundo fosse um só: um novo modelo, uma nova regulação, um novo escândalo de dados, uma nova promessa de produtividade. A discussão —na mídia, nas redes, em boa parte da literatura de políticas públicas— tende a se dar a partir de uma geografia implícita: Washington, Bruxelas, San Francisco, Pequim. O resto do mundo aparece, quando aparece, como “mercado emergente”, como “caso de aplicação” ou como estatística de desigualdade digital.

Este blog parte de uma premissa distinta: o Sul Global não é um lugar onde a IA “ainda não chegou” ou onde é preciso “fechar uma lacuna”; é um ponto de observação a partir do qual as novidades desta semana se veem de outra maneira —e a partir do qual, muitas vezes, se entendem melhor. Não porque haja uma perspectiva “autêntica” do Sul frente a uma “universal” do Norte, mas porque boa parte do que se apresenta como técnico, neutro ou inevitável no discurso dominante de IA é, na verdade, uma decisão institucional tomada em um lugar e a favor de certos interesses —e essa decisão se vê com muito mais nitidez a partir das margens do que a partir do centro.

O que este blog NÃO vai ser

Não é um blog de notícias de IA. Para isso há newsletters excelentes que resumem lançamentos e papers melhor do que eu poderia fazer semana a semana. Também não é um blog de tecno-otimismo (“a IA vai resolver X no Sul Global”) nem de tecno-pessimismo (“a IA é simplesmente colonialismo com outro nome”). Ambas as posturas, ainda que parcialmente verdadeiras, acabam simplificando: a tecnologia digital —isto tomo de Stiegler— funciona como um pharmakon, remédio e veneno ao mesmo tempo, e sustentar essa ambivalência sem resolvê-la prematuramente é parte do trabalho intelectual, não uma falta de definição.

O que ele vai ser

Cada semana vou tomar duas, três, às vezes mais novidades da agenda de IA —lançamentos, políticas, papers, controvérsias— e comentá-las brevemente, não para resumi-las, mas para perguntar: o que isto significa especificamente para instituições, comunidades e Estados do Sul Global? Não como reflexão geral, mas ancoradas no fato concreto daquela semana.

Para não dispersar a análise, organizo os comentários em categorias que se repetem (embora nem todas apareçam todas as semanas):

  • Educação — como a IA entra nas salas de aula e nas políticas educativas, e que modelo de estudante e de conhecimento pressupõe.
  • Governança — regulações, marcos legais, litígios: quem está escrevendo as regras e a partir de que lugar.
  • Democratização — quem participa das decisões sobre estas tecnologias, e quem fica excluído dessa conversa mesmo sendo igualmente afetado por ela.
  • Cuidado dos comuns — open source, dados abertos, e a diferença entre abrir o código e efetivamente compartilhar poder.
  • Impacto ambiental — o custo energético e hídrico da IA, e quem o paga.
  • Oportunidades para o setor público — quando o Estado pode orquestrar em vez de apenas regular ou comprar de um fornecedor.
  • Comuns epistêmicos — quem controla os modelos e a infraestrutura de pesquisa, e que assimetrias Norte-Sul se aprofundam ou se resistem.

Estas categorias não são fixas: vão se ajustar à medida que o blog encontre sua forma.

De onde escrevo isto

[Um parágrafo breve, em primeira pessoa, sobre a sua posição: pesquisador/a em filosofia da tecnologia, governança de IA, ciências da complexidade e STS — sem necessidade de currículo completo, apenas o suficiente para que o leitor entenda o ângulo.]

Um convite, não uma promessa

Não vou ter razão todas as semanas, nem pretendo que esta seja a análise definitiva de nada. A ideia é sustentar uma conversa crítica e situada, semana a semana, sobre algo que se move rápido demais para esperar o tempo longo do paper acadêmico, mas que merece mais do que um fio de reações. Se te interessa, te espero na semana que vem.

Authors
Filosofía de la tecnología · STS · gobernanza de la IA
Ya sabrán más de nosotrxs.